AsfaltoLTDA


ARTISTS
Represented
︎

Alice Lara
Daniel Barreto
Ian Nes
Marcus Deusdedit
Victor Fidelis

Incubating︎
Laryssa Machada

_________________________

EXHIBITIONS ︎
Group Show -
Larguem Minha Fantasia

Laryssa Machada-
Y Elas Voltem A Se 
Codificar


Daniel Barreto -
Cidade do Aço

Group Show -
Mostros Sao Coisas Selvagens


________________________

SPECIAL PROJECTS ︎
LAB.SUAV

LOMBADA


instagram

Mark


Cidade do Aco

individual de Daniel Barreto [Daniel Barreto's solo exhibition]
24.08.2022__16.10.2022

︎Asfalto


Vista da exposição [view from the exhibition]
︎ luis menezes © Asfalto


Podemos viver em um tempo interessante, onde a era das imagens tenha por fim atingido seu êxtase. Imagens medidas em cotas milionárias, museus digitais, artistas virtuais; uma profusão de criadores compartilhando-se em rede ao infinito. Celebridades artistas, artistas célebres, e o estatuto do reconhecimento tão inflado levanta a pergunta: o que restou (ou restará) dos artistas artistas? Sem delírios românticos de discriminar o que cabe ou não cabe ao fazer artístico, em um tempo tão interessante, a pergunta é: onde persiste a dimensão artesanal do gesto artístico de produzir uma imagem? Ou, ainda além, no contexto específico dessa exposição, e de um artista como Daniel Barreto, qual é o gesto que melhor descreve o fazer de um Artista Pintor na era do apogeu das imagens?

Borrar as manchas, manchar as bordas, capturar a luz, fundir as cores, dar a ver, fazer parecer, impressionar, imitar, desafiar, figurar, desfigurar. Não faltaram fórmulas ou verbos na história da arte a tentar desvendar a tarefa do pintor. Mas a beleza do coeficiente artístico está nas singularidades, e quando um grande pintor como Daniel aparece, ele será sempre o primeiro e o último de sua própria tradição. Essa da qual nós, privilegiados espectadores, podemos nos dedicar a tentar conhecer.

Para tal, será necessário uma breve incursão na biografia do artista: Cidade do Aço, expressão que cunha o título dessa exposição e também apelida o município de Volta Redonda, de onde Barreto é natal, é tema comum do conjunto de telas que compõem essa mostra. Cidade do Aço, refere-se ao boom industrial do Município que recebeu, durante a era Vargas, a Companhia Siderúrgica Nacional, como parte de um projeto desenvolvimentista, que atraiu famílias, sobretudo do sudeste e nordeste, numa promessa de ascensão social e prosperidade econômica. Nesse cenário, de um núcleo familiar que mistura tradições do cerrado ao sertão, Daniel viveu sua infância e juventude, tendo como pano de fundo uma cidade ao mesmo tempo rural e industrial, fruto um processo de urbanização rápido e desordenado que protagonizou marcos da história do brasil, como a Greve da CSN em 88, as privatizações do governo FHC nos 90, culminando no declínio da indústria nacional.

Adentrar a esse universo biográfico é importante não a fim de explicar uma poética ou revelar curiosidades temáticas sobre o artista, mas sim por que essa história constrói a singularidade da pincelada de Daniel Barreto, um Artista Pintor. Existe um espaço tátil-optico que se constrói nas pinturas presentes nessa exposição, que se revelam na fartura material que compõe a densidade dessas telas: no peso da tinta óleo carregada na superfície da canvas, na beleza de uma figuração sedutora, de uma paleta de cores hora mais quente hora mais fria, mas sempre harmônica, pensada, estudada, tal qual a de um mestre dos fazeres da pintura. No entanto, mais além, a singularidade dessas obras reside no fato de que a principal matéria de Daniel Barre- to é o tempo, e um tempo muito particular, que emerge da ligação íntima do artista com as temporalidades do futuro, passado, e presente dessa Cidade do Aço.

O artista pinta camadas que coexistem numa disparidade temporal, por máscaras que constroem a superfície da tela, e que quando retiradas revelam um fundo de um outro tempo, que pas- sam a construir o mesmo mundo de histórias sobrepostas. Esse método extrativo do artista pode ser afinal entendido como uma variação de sua pincelada: retirar para revelar, extrair para compor. Assim, ilustrações compreensíveis de cenas corriqueiras e nostálgicas como um café da tarde em família, a criança na pracinha, a flora local ou do ornamento da mesa da avó, são interrompidas por gestos mecânicos quase violentos de arrancar parte da tela, extraindo informação e revelando lacunas preenchidas por vestígios de uma cena anterior ou posterior, uma se somando a outra, formando a Imagem Pintura de Daniel Barreto.

Assim Daniel pinta a história da Cidade do Aço, que se mistura com a história dele mesmo, e que se mistura com a história do Brasil. Evocando uma ternura de quem sente falta justamente das tardes em família, de contos de um lugar que nunca se viu, de uma vida simples, calma, lenta, do afeto das coisas quase sem importância. Daniel parece resgatar essas imagens de memória, tão frágeis como uma flor que nasce no asfalto, e parece querer protegê-las da aspereza do aço da indústria, cortante e rígido, ao passo que não o ignora, pelo contrário, o revela. Daniel pode ser, erroneamente, considerado um artista nostálgico, mas não o é porque não se satisfaz em lamentar a falta, e sim a assimila. Pintando Daniel Barreto nos convence de que o tempo não só ergue como destrói as coisas belas, de que as cidades são imaginárias, de que o aço pode ser tão mole quanto a ponta de um pincel, de que as coisas mais lindas são aquelas consideradas sem ênfase, e de que ainda há tempo para a arte, e portanto, para ser um Artista Pintor.


Nico Dantas Rocha
[Diretor da galeria]

_______________

We may live in interesting times, where the age of images has, at last, reached its most. Images measured in millionaire quotas, digital museums, virtual artists; a profusion of creators networked to infinity. Celebrity artists, celebrated artists; such an inflated status of recognition raises the question: what is (or what will be) left of artist artists? Without romantic delusions of discriminating what fits or what does not fit in artistic making, in such interesting times, the question is: where does the artisanal dimension of the artistic gesture of producing an image persist? Or, even further, in the specific context of this exhibition, and of an artist like Daniel Barreto, what is the gesture that best describes the work of an Artist Painter in the era of the image heyday?

Blurring the stains, smearing the edges, capturing the light, merging the colors, making it appear, making it disappear, impressing, imitating, challenging, figuring, disfiguring. There was no lack of formulas or verbs in the history of art trying to unravel the painter's task. But the beauty of the artistic coefficient is in the singularities, and when a great painter like Daniel appears, he will always be the first and the last in his own tradition. This one that we, privileged spectators, can dedicate ourselves to trying to get to know.

To this end, a brief incursion into the artist's biography will be necessary: Cidade do Aço [City of the Steel], an expression that coined the title of this exhibition and also nicknames the municipality of Volta Redonda, where Barreto was born, is a common theme to the set of canvases that composes this show. Cidade do Aço, refers to the industrial boom of the Municipal- ity that received, during the Getulio Vargas Government, in the 50’s, the CSN (the national steel company), as part of a developmental project, which attracted families, especially from the Southeast and Northeast, in a promise of social ascension and economic prosperity. In this scenario, of mixed family traditions that goes from the cerrado to the sertão, Daniel lived his childhood and youth, fronting the background of a city that was both rural and industrial, and the result of a fast and non planned urbanization process, that also was the protagonist of a few milestones in the history of Brazil, such as the CSN strike in 1988, the privatizations of the FHC government in the 90s, culminating in the crises and decline of the national industry.

Entering this biographical universe is important not in order to explain a certain aesthetic or to reveal curiosities about the artist’s life, but because this story builds the singularity of the very unique brushstroke of Daniel Barreto, a legit Painter Artist. There is a tactile-optic space that is built in the paintings present in this exhibition, which is revealed in the density of these canvases: in the weight of the oil paint carried on the canvas surface, in the beauty of a figurative seduction, in a palette of colors that sometimes is wormer, sometimes is coller, but that is always harmonious, thought out, studied, just like as of a master painter. However, beyond that, the uniqueness of these works lies in the fact that Daniel Barreto's main subject is time, and a very particular time to be said, one that emerges from the artist's intimate connection with the temporalities of the future, past, and present of this so called Cidade do Aço.

Barreto paints layers that coexist in a temporal disparity, using masks to build the surface of the canvas to remove them at a certain point of the process, breaking the image and revealing a background from a different time, which start to build the same world of overlapping stories coexisting in the same painting. This extractive method of the artist can be understood, after all, as a particularity of his brushstroke: removing to reveal, extracting to compose. Thus, understandable illustrations of ordinary and nostalgic scenes such as a family coffee in the after- noon, a child in the playground, the local flora or the ornament on the grandmother's table, are interrupted by almost violent mechanical gestures of ripping part of the canvas, extracting information and revealing gaps filled by traces of a previous or later scene, one adding to the other, forming a sort of Image that is very signature of the Artist.

Just like that, Daniel paints the history of Cidade do Aço: a history of a city, of a factory, o a certain countryside lifestyle, that mixes with his own personal history, and which mixes with the history of Brazil. Evoking a tenderness of someone who misses family afternoons, tales of a place that has never been seen, a simple, calm, slow life, lying in the affection of those “al- most unimportant” things. Daniel seems to rescue these images from the memory, as fragile as a flower that grows on the asphalt, and it seems to want to protect them from the harshness of the industry's steel: sharp, rigid, while he does not ignore the harshness of it, on the contrary, when he tells this stories, he reveals the amount of iron behind of it. Daniel can be, errone- ously, considered a nostalgic artist, but he is not because he is not satisfied with regretting the lack of something that passed, instead, when rebuilding these stories in his paintings, he mix- es portions of "then", "now", and "there" in a non linear timeline. Painting Daniel Barreto convinces us that time not only raises but destroys beautiful things, that cities are imaginary, that steel can be as soft as the tip of a paint brush, that the most beautiful things are those considered without emphasis, and that there is still time for art, and therefore, to be an Artist Painter.

Nico Dantas Rocha
[Gallery’s director]




︎︎